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São Paulo, 2 de outubro de 1992

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Por: Elis Tavares

Naquela noite de 2 de outubro de 1992 todos na sala estavam em silêncio mortal. A TV preto e branco do barracão do vizinho do lado anunciou que a polícia de SP havia invadido o presídio do Carandiru. A mãe do menino chorava angustiada, pois temia que o pior acontecesse.

 

E tinha razão para temer. O pai do menino estava preso havia 3 meses e justamente no pavilhão 9 do presídio invadido. Todos olhavam apreensivos a TV e o silêncio na sala só era quebrado pelos soluços da mulher angustiada. O menino abraçou a mãe tentando confortá-la. Sua cabeça de criança não conseguia entender porque o pai estava preso junto com os homens "maus".

A mãe sempre dizia que seu pai foi preso porque queria alimentar os filhos. E ela perguntava se seria pecado roubar para matar a fome dos filhos...

                Três meses atrás, o pai desempregado procurava trabalho em toda a cidade, mas não encontrou. Toda a população estava sofrendo com a crise econômica, causando desemprego e insatisfação popular. A inflação estava no teto e o país enfrentava a maior recessão econômica de sua história.

Muitas empresas fecharam as portas fazendo com que a produção e salário dos funcionários diminuísse. Com isso, 170 mil postos de trabalhos deixaram de existir, inclusive o trabalho do pai do menino.

Dizendo que "barriga com fome não espera que a crise no país acabe", o pai então, decidiu cometer um assalto à mão armada. Se juntou com mais 2 amigos desempregados que tinham uma arma e foram escolher um supermercado para aliviar a fome dos seus filhos.

Mas, como eram novatos no mundo do crime, logo foram presos pela polícia e caíram no pavilhão 9 do Carandiru, que era destinado aos réus primários. Agora, os pais de família, antes trabalhadores, se tornaram criminosos perante à sociedade, igualando-se aos assassinos, estupradores e ladrões presos no Carandiru .

Eles estavam aguardando a decisão da justiça havia 3 meses e enquanto isso, a mãe do menino lavava roupas para as senhoras ricas dos bairros nobres. Mas, o dinheiro não dava para sustentar os 4 filhos que o presidiário enquadrado no artigo 157 deixou.

A mãe e os filhos se alimentavam apenas uma única vez ao dia e aos domingos durante as visitas ao Carandiru, o pai prometia que nunca mais cometeria crime algum, pois precisava ficar ao lado de sua família.

                Domingo, 3 de outubro de 1992. A mãe dirigiu-se com o menino para a portaria do Carandiru. Várias famílias gritavam por notícias dos seus filhos, maridos e pais. A resposta veio pelo IML: vários presidiários estavam mortos. Uma tatuagem no ombro coberto de mordidas revelou a identidade do morto.

Uma fincada de dor foi cravada no coração da mãe do menino ao reconhecer o corpo despedaçado do marido. A cabeça do pai foi metralhada e seu corpo estava em pedaços devido a mordidas dos cães. A mulher, em um surto desesperado, foi retirada da sala do IML. A mãe ajoelhando-se e chorando, perguntou aos céus o por quê do marido ter sido covardemente morto pela polícia de SP.

Essa cena o menino nunca mais iria esquecer e diante dela, jurou que iria vingar a morte de seu pai. O nome do menino era Zeca, futuro assaltante de bancos... E assim nasceu um dos maiores pesadelos daquele estado e do país: uma facção do crime organizado com milhares de "soldados" espalhados dentro e fora dos presídios.

* No ano de 92, o país passava uma das piores crises econômicas já vista. A inflação estava no teto e o país enfrentava a maior recessão econômica de sua história. Muitas empresas fecharam as portas fazendo com que a produção e salário dos funcionários diminuísse. Com isso, 170 mil postos de trabalhos deixaram de existir somente no estado de SP.

* O massacre do Carandiru matou mais de 100 presos, dentre eles, pessoas com prisão cautelar ilegal, ou seja, pessoas que poderiam estar respondendo processo em liberdade até a condenação definitiva.

* Muitos presos que estavam no pavilhão 9, onde aconteceu o massacre, poderiam ter cumprido pena alternativa devido a crimes de menor gravidade como pequenos roubos.

* No massacre, além dos tiros, os policiais usaram cachorros para morderem os presos. Dizem que haviam pedaços de membros espalhados pelo pavilhão nove.

* Peritos que visitaram o presídio após o massacre disseram que o sangue era tirado a rodo, devido a quantidade de sangue espalhado pelo chão.

* O massacre do Carandiru foi o estopim para a criação da facção criminosa PCC. Hoje, essa facção tem o poder de parar o estado de São Paulo quando bem entender.

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